Nos últimos anos, a cadeia produtiva de leite tem passado por crescentes transformações, buscando o aumento da produção e da qualidade do leite, satisfazendo as demandas da indústria de processamento e dos consumidores. Assim, os sistemas de produção de leite em todo o mundo precisam ser capazes de combinar rentabilidade com a responsabilidade de proteger a saúde humana, o bem-estar animal e o meio ambiente.

Define-se bem-estar como o estado do animal frente às suas tentativas de se adaptar ao ambiente em que se encontra, e segundo a World Society for the Protection of Animals (WSPA), o bem-estar não diz respeito apenas à ausência de crueldade ou de “sofrimento desnecessário”, é algo muito mais complexo. Para ter um alto grau de bem-estar atendido faz-se necessário cumprir as “cinco liberdades” inerentes aos animais definidas como:

  • Liberdade fisiológica (livre de fome e de sede);
  • Liberdade ambiental (livre de desconforto);
  • Liberdade referente à sanidade (livre de dor, injúrias e doenças);
  • Liberdade comportamental (livre para expressar padrões normais de comportamento);
  • Liberdade psicológica (livre de medo e estresse).

A partir da verificação do atendimento ou não das cinco liberdades pode-se “quantificar” o bem-estar de determinado animal.  Assim, para mensurar bem-estar animal é necessário identificar indicadores de alto e baixo grau, e para isso, deve-se considerar a natureza dos animais, os aspectos emocionais e a função biológica do animal em avaliação.

Com relação à natureza dos animais, conhecê-la é fundamental para entender o comportamento normal e avaliar o bem-estar. Por exemplo, sabe-se que bovinos são animais de hábito gregário, ou seja, andam em grupos, apresentam organização social bem estabelecida e são animais com comportamento de presa. Além dessas características, os bovinos apresentam outros padrões comportamentais e fisiológicos próprios da espécie, como a ruminação. Quando em situações de avaliação do bem-estar utiliza-se a ocorrência e frequência de comportamentos anormais e estereotipias para definir o grau de bem-estar, por isso a importância de conhecer aspectos comportamentais naturais da espécie em avaliação, proporcionando sempre ambiente enriquecido com conforto térmico e livre acesso à água. Outro aspecto a ser considerado durante mensurações de bem-estar são as particularidades emocionais de cada animal, como motivação, medo, preferência e outros. Esses aspectos subjetivos podem ser considerados quando se avalia o bem-estar através de testes de preferência.

A verificação do bem-estar pode ser realizada também através de indicadores fisiológicos como níveis de glicocorticoides, frequência cardíaca, frequência respiratória, respostas do sistema imune, ausência de doenças no rebanho, lesões e/ou fraturas, como exemplo claudicação (manqueira), escore de condição corporal (ECC) de 2,5 a 3,5 considerado o ideal para vacas em lactação e o indicador incidência de mastite dão um bom panorama do atendimento das cinco liberdades inerentes aos animais. Além disso, respostas como produção de leite, leite residual e respostas comportamentais podem auxiliar na avaliação de bem-estar respeitando a função biológica, portanto, considerar este ponto de determinado animal, que no caso de vacas leiteiras a principal finalidade é reproduzir-se e produzir leite, é possível buscar cumprir a função do animal e, ao mesmo tempo, atender ao bem-estar, de acordo com os indicadores fisiológicos.

Referências

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